Crónicas

Recordar é viver

Campo

Cresci numa casa de campo, em Elvas, rodeada de espaços verdes, árvores e flores. Na primavera, havia vida e cor por todo o lado; no inverno nem tanto. Talvez por ser uma casa isolada, parecia mais fria e vazia.
Adorava brincar naquele enorme espaço com os animais e a minha irmã. Éramos unha e carne, inseparáveis, fazíamos tudo juntas. Tratávamos dos animais, corríamos, ríamos, partilhávamos os nossos segredos, cuidávamos uma da outra…
O apoio dos amigos da escola, a cumplicidade da minha irmã, o carinho e a educação dos meus pais fizeram de mim uma criança feliz.
Atualmente, as pessoas não interagem da mesma forma, preferindo os seus telemóveis ou computadores para conversarem, brincarem, desabafarem e explorarem. As crianças têm menos contacto com espaços exteriores, não sabem o que é chegar a casa cansada e suja de tanto brincar e mesmo assim querer voltar lá para fora e fazer tudo outra vez.

Cátia Fonseca, 9.ºBFlores

Na fronteira do Caia

Campo1

Cresci na fronteira entre Espanha e Portugal, numa localidade onde apenas havia um café, uma esquadra da GNR e algumas casas. Cresci no meio de campos de cultivo, mas, durante os meus primeiros anos de vida, achei o Caia bastante divertido.
Vivia com os meus pais num prédio perto da autoestrada, por isso entretinha-me a ver os carros e as pessoas a passarem para a outra margem através de uma ponte de ferro. Passava imenso tempo em casa da vizinha Antónia porque os meus pais trabalhavam em Espanha e na minha terra não havia sequer um jardim de infância. Ela tinha um cão que passava os dias no quintal a brincar comigo. Nessa altura, dava passeios com ele e com a senhora Antónia. Conhecíamos toda a gente que ali morava. Para uma criança da minha idade, aquilo era o paraíso.
Hoje, se for ao Caia, já não encontro o paraíso. Está tudo destruído. A minha casa tem as janelas partidas, não tem porta e o teto desabou. A única coisa que se mantém é a casa da vizinha Antónia, e mesmo essa já não é o que era. Agora está tudo degradado e as pessoas que passam por lá pensam que é apenas um bairro de marginais.
Infelizmente, vista é desagradável para quem passa. Não é assim que deve ser recordado o meu antigo paraíso.

Maria Cardoso, 9.ºB